“Sound City” – Mais do Que Sobre Música, Sobre Humanidade

  • by Augusto Villela
  • 19 de setembro de 2016

Olá, galera! Meu nome é Augusto V. L., sou formado em Engenharia Biotecnológica, mas minha verdadeira paixão é a música. Sou baterista desde os 14 anos mas grande apreciador da música e outras artes desde pequeno. Atualmente, mantenho um blog chamado Disco-berta, que resenha álbuns dentro de seus contextos históricos, e uma página chamada Independência e Arte, que visa promover e criar uma rede entre artistas e críticos de arte que sejam independentes.

Recentemente, fui convidado a contribuir ao Rock Blast, e logo percebi que a proposta deles não concerne somente ao rock em si, mas tudo que o ajudou a consolidar e, mais importante: o que é necessário para mantê-lo vivo! É por isso que resolvi publicar como um primeiro texto uma análise do documentário Sound City, que fala além do rock, da música: ele fala sobre humanidade.

Imagine que você nunca tivesse ido a escola, que seu aprendizado fosse todo feito por computador, com um professor anônimo ajudando nas correções e nas dúvidas. Imagine que você nunca tivesse aprendido a escrever, só a digitar, e que você quisesse fazer um desenho, sem o lápis. Imagine que você tenha conhecido seu companheiro em algum Tinder da vida, e tivessem feito o casamento de vocês por internet, ou mesmo gerado o filho de vocês em um laboratório desconhecido, à distância. São concepções densas essas, não?

Pois é exatamente disso, dentro da esfera da música, que o documentário “Sound City” discorre. Dirigido e produzido por Dave Grohl, considerado por muitos “o cara mais legal do rock”, o documentário aborda a música moderna de uma forma antes nunca vista, em termos de abrangência e de temática.

Ao longo dos anos, vimos documentários sobre bandas e discos famosos, abordando a respeito de como tudo aquilo havia sido desenvolvido, passando por relatos dos membros e a quem mais tivesse adjacente ao álbum. Porém, nunca se havia registrado, com tanta profundidade, o lugar onde grande parte dessas histórias foram concebidas: o estúdio de gravação.

A história deste lugar se inicia no final dos anos 60, quando Joe Gottfried e Tom Skeeter compraram o local (que costumava a ser uma fábrica de amplificadores Vox) e iniciaram os estúdios Sound City. Nas palavras de Tom: “nosso objetivo inicial era produzir o próximo sucesso da indústria musical e fazer muito dinheiro”! Com um objetivo muito brando e vago, o Sound City aceitava qualquer artista que possuísse dinheiro o suficiente para gravar.

Com um bom início de negócio, fizeram um investimento de cerca de 76 mil dólares para encomendarem uma mesa Neve 8028, fabricada pelo visionário inglês Rupert Neve. Para se ter uma ideia da dimensão desse valor, a casa de Tom havia custado metade disso! Na época, só haviam mais três como essa, mas nenhuma feita sob medida qual a de Sound City. Esta mesa foi tão importante que Grohl fala, em certa parte do documentário, que este seria feito para contar somente sua história. Mas por que essa mesa é importante?

Porque ela simplesmente é a alma de cada disco que foi gravado posteriormente lá. Isso inclui uma vasta gama de bandas, como Foreigner, Tom Petty and the Heartbreakers, Metallica, Cheap TrickDio, Kyuss, Red Hot Chilli Peppers, System of a Down, Carl Perkins, Nine Inch Nails e muitos outros. A mesa tem seu próprio som, e isso dá-se devido a sua qualidade analógica incrível, que Rupert Neve inclusive tenta explicar para nós, meros mortais, mas que é mais fácil ser sentida do que entendida.

Poderíamos aqui escrever um texto apenas falando sobre a comparação entre o som e a captação digital e analógica. Para ilustrar apenas uma das principais diferenças, segue a figura abaixo:

analog-digital-frequency-examples

Como vocês podem ver, do lado direito temos a onda real de som, e do lado esquerdo como ela é interpretada (captada/emulada) pelo equipamento analógico e pelo digital. Não precisa ser um especialista para notar que a captação e reprodução analógica é muito mais fiel ao som real do que a digital. Nas palavras de Neil Young, era um som “matematicamente cristalino”, com John Fogerty completando “a voz soava mais humana”.

A questão é que, por si só, a mesa já era um diferencial para o estúdio. Outra coisa que é mencionada é a sala de bateria. Como costumava a ser um lugar de estoque de amplificadores, ela é grande e quadrada, o que teoricamente não resultaria em uma boa sala acústica. Porém, o som de bateria dela é descrito como mágico. “O que acontece no som entre as notas da bateria, naquele lugar, é mágico”, descreve Brad Wilk, baterista do R.A.T.M. Quem completa é Rick Rubin, produtor extremamente conceituado dentro do rock: “aquilo é sorte e mágica, e você não pode controlar essas coisas”.

Mas nem tudo são flores em Sound City. Localizado no vale de San Fernando, um lugar isolado no meio de depósitos e fábricas, era um estúdio mau cuidado e mau cheiroso. Essa parece ser uma unanimidade entre os participantes do documentário, que relembram como o carpete de todo o lugar era sujo, cheio de manchas e cinzas de cigarro. O lugar, à primeira vista, causava desconforto e asco por parte dos artistas, mas seus membros e donos mostravam zelo para com estes, que claramente expressam a gratidão ao longo do documentário.

A primeira grande história em Sound City é com certeza o disco Fleetwood Mac. A banda homônima já existia, mas não contava ainda com o casal Lindsey e Stevie Nicks, do Buckingham Nicks. Eles haviam desistido de tudo quando vieram para Los Angeles gravar o disco de mesmo nome, e foram morar na casa de Keith Olsen, o produtor deles e residente do Sound City.

Sendo abandonados pela Polydor, seu selo, os dois vieram a ser descobertos por Mick Fleetwood, que estava procurando um guitarrista para sua banda. Como o casal não se separava também musicalmente, Stevie Nicks veio se juntar a banda também, e eles gravaram o disco que viria a atingir o número um de vendas no ranking da Billboard e passaria 37 semanas entre os dez primeiros, totalizando mais de 25 milhões de discos vendidos somente nos Estados Unidos. À partir deste ponto, estava formada uma das bandas que mais vendeu discos em toda a história, com cerca de 100 milhões de discos no mundo inteiro.

Todo esse sucesso começou naquele espaço fétido e nada convidativo. Neste começo de documentário, você já consegue entender que, mais do que sobre a mesa e sobre o espaço, ele trata sobre pessoas e suas relações. Se Keith Olsen não trabalhasse lá e não tivesse aberto sua casa para o casal Nicks, não haveria existido tal disco. Mais do que entender os bastidores de tal disco, passamos a entender como as relações e encontros humanos podem gerar coisas extraordinárias.

Nas palavras de Mick Fleetwood: “Sound City era uma igreja e, não sei o por quê, eu é que abri as portas”. À partir daquele momento, várias bandas começaram a procurar o estúdio para gravarem os seus discos, como o REO Speedwagon, Grateful Dead, Cheap Trick e Foreigner. Porém, mesmo depois de tanto sucesso, continuaram com a mesma estrutura e funcionários.

Aliás, as pessoas que trabalhavam lá eram outra parte fundamental do estúdio. Toda vez que alguém saía ou era promovido, todos mudavam de função (ou eram promovidos também). Mas essa mobilidade não era somente dentro de uma estrutura hierárquica. Nick Raskulinecz (que havia sido contratado por saber fazer guacamole), por exemplo, era funcionário da limpeza, e ainda nesse período começou a aprender a comandar a mesa Neve, posteriormente assumindo o posto de engenheiro de som e vindo a se tornar futuramente produtor de grandes bandas como o Rush, Alice in Chains, Mastodon e etc.

Fica claro que aquele espaço proporcionou, além de grandes clássicos do rock, grandes oportunidades, amizades e amores. Rick Springfield, que gravou seu disco de mais sucesso “Working Class Dog”, conheceu sua esposa Barbara em Sound City, que trabalhava como secretária. Aliás, o cão da capa desse álbum frequentava lá juntamente a Rick, e inclusive “participou” das gravações de “Jessie’s Girl”, ficando entre as pernas do guitarrista Neil Giraldo durante todo seu take!

Paula Salvatore, que foi durante a década de 80 a gerente de lá, era muito querida por todos os artistas que lá passavam, e inclusive participou de backin’ vocal em um disco do Masters of Reality. Ela relata que, se não fosse o Sound City, ela não teria essa oportunidade de poder cantar e conhecer as pessoas que conheceu. Jim Scott, Butch Vig, todos eles viriam a se tornar produtores graças às vivências dentro do estúdio.

Conforme o documentário vai passando, vamos entendendo a importância daquele lugar para todos que lá passaram, da mesma forma que nos importamos com nossas escolas e outros lugares de profundas experiências de amizade e aprendizado.

Mas, voltando a questão sonora em si: nos anos 80, o Sound City viu-se com uma agenda lotada. Tom Skeeter fala: “gravamos tantos discos nessa época que, a cada dez músicas de rock da rádio, de sete a oito haviam sido gravadas aqui”. Keith Olsen, que havia estado desde o começo, sai do estúdio para montar o seu próprio, ao lado de Sound City. O motivo?

Bom, aqui entramos mais uma vez no tópico analógico vs digital: nesta década, vimos os chamados sequenciadores, principalmente os associados às baterias eletrônicas, tomarem conta do mercado. Além disso, as primeiras tecnologias de captação e gravação digital começaram a aparecer. Os grandes estúdios e selos adotaram quase que instantaneamente essas novas tecnologias, pois elas eram facilitadoras do trabalho, já que evitavam a necessidade de diversos takes para captarem uma bateria com o tempo redondo, por exemplo.

O próprio documentário ressalta esse fato, destacando a palavra PACIÊNCIA do slogan de um dos sequenciadores: “Não requer paciência”. Além disso, haviam adotado piscinas, banheiras, e outras formas de entretenimento para seus frequentadores, que na época incluíam os extravagantes músicos do glam/hard rock, estes que levavam o sloganSexo, Drogas e Rock and Roll” muito a sério.

Enquanto isso, o Sound City se mostrava resistente às novas tecnologias, prezando a qualidade analógica, e continuava com a mesma sujeira e “bagunça organizada” dos seus primórdios. Keith Olsen então havia entendido que isso não mudaria, e resolveu acompanhar o mercado. Não aguentando o escoamento de artistas, Joey não teve mais dinheiro para manter suas contas, e assim muitos, inclusive Paula, uma figura importantíssima de lá, demitiram-se no final da década.

Já na década de 90, Shivaun O’Brien assume a gerência de um quase falido Sound City. Com dinheiro do próprio bolso, ela compra tinta e dá um jeito de melhorar a aparência do estúdio. O que acontece a seguir, então, mudaria completamente a vida de todos os envolvidos e da história do rock que conhecemos: um jovem Dave Grohl e seus companheiros de banda Kurt Cobain e Krist Novoselic chegam ao estúdio para gravar o álbum do Nirvana, “Nevermind”.

Toda a fúria da banda e o sentimento que Kurt trazia nas letras e que canalizava a voz de uma geração toda só foi transmitido com sucesso graças à captação feita em Sound City. Como o produtor Butch Vig descreve “o som sai primitivo dos falantes, dá para sentir o suor de Dave Grohl, o ar passando pelas cordas vocais de Kurt”. Mesmo tendo sido usado o computador em mínimas partes de edição, “Nevermind” havia sido captado e processado através do equipamento analógico fantástico que só Sound City oferecia.

Não houveram correções ou ajustes eletrônicos nas falhas da guitarra de Kurt, ou em Grohl acelerando o andamento da música. Nas palavras dele: “as imperfeições são legais, elas nos fazem soar como pessoas”! O Nirvana estava lá, mais uma vez, para dizer que o rock não se tratava somente de música, mas de atitude e sinceridade.

Um sucesso absoluto, o álbum hoje tem mais de 24 milhões de cópias vendidas e, na época, fez com que Sound City se reerguesse novamente. Ele então ficou com a reputação de ser um levante de resistência à tecnologia e foi casa para muitas bandas que necessitavam da captação de sua energia que só aparelhos analógicos e rolos de fita eram capazes.

Rage Against the Machine, por exemplo, gravou metade do seu álbum ao vivo em uma única noite, com amigos assistindo, captando toda a “raiva contra a máquina” que seu nome já denunciava, vendendo também milhões de cópias. Tool, Kyuss, Red Hot Chilli Peppers, Queens of the Stone Age, System of a Down, Slipknot e todas as bandas importantes que surgiram nessa época tiveram sua energia captada lá.

Porém, com a era da internet e o fim da fabricação de rolos de fita, o estúdio veio a encerrar permanentemente suas atividades em 2011. Esse relato é feito com muito pesar por Shivaun e Nick, este que relata: “considerava ela uma mãe, é muito triste ver o fim de tudo isso”. “Os dias de você entrar em um estúdio, compor, gravar, produzir e mixar o seu álbum, esses dias ficaram para trás”, complementa.

Foi aí então que, para que Grohl pudesse contar essa história e cristalizar seu sentimento por tudo aquilo, ele convidou grandes artistas que passaram por lá para compor e gravar um álbum em seu estúdio 606, que contava agora com a mesma mesa Neve de Sound City.

Durante este trecho do documentário, podemos perceber sua principal mensagem: o fator humano é um componente essencial para a música. Em uma era de Pro Tools, ferramentas digitais de gravação, produção e edição de músicas, como Trent Razor constata, duramente, “são dias que qualquer idiota pode fazer um álbum”. Mas o que ele diz com isso não implica em menosprezar ninguém.

A principal mensagem atrás dessa frase é que hoje não é mais necessário que você toque um instrumento para poder gravá-lo, gravar 150 takes (como foi o caso de Tom Petty e sua banda em “Refugee”) até que a música saia como desejado, não existe mais erros imortalizados na composição (como o acorde de piano e a risada em “Roxanne”, do The Police), não é necessário você estudar sobre frequências para se produzir um álbum.

Como o próprio Trent diz: “muitas pessoas nunca tocaram no compressor que está sendo emulado por seu programa”. Sendo um pouco mais duro, ele complementa “as ferramentas digitais de hoje são melhores que do que as de cinco anos atrás, e melhores ainda dos que as existentes há 30 anos atrás. Isso significa que as pessoas têm capacidade de criar coisas mais incríveis do que antigamente? Na verdade, não”.

O que Trent Razor e todo esse documentário quer mostrar é que espaços como o Sound City proporcionaram a formação de álbuns e clássicos da música moderna que não seriam possíveis sem as pessoas por trás disso e uma captação adequada desse sentimento, que é mais “matematicamente cristalina” quando analógica.

Hoje em dia, as pessoas gravam seus álbuns separadamente e por vezes nunca se veem nesse período, não compartilham um mesmo espaço e utilizam muito do recurso chamado overdub, que é basicamente gravar camada por camada da música ao invés de toda ou parte dela ao vivo. Isso retira a espontaneidade e o fator humano daquela captação.

O aprendizado e aperfeiçoamento de qualquer coisa que seja técnica vem da repetição, e músicos daquela época foram “educados na marra” dentro do estúdio, já que ou aprendiam ou tinham seu disco arruinado por uma performance ruim. O produtor, como Keith Olsen genialmente descreve, é aquele que “deve ser o veículo que põe a criatividade do artista dentro da fita, de um modo acessível ao mercado”.

Todos os produtores que são entrevistados nesse documentário tiveram seu trabalho consolidado por tentativa e erro, juntamente ao aprendizado mútuo com os artistas. Graças a eles, conseguimos ouvir nossas músicas favoritas da melhor maneira possível e o mais perto do que seria de um show daquela banda.

Essas pessoas empurravam umas às outras para que elas dessem o seu melhor. Nas palavras do produtor James Brown: “As limitações da gravação analógica fazem você tomar decisões com base no que é mais importante para transmitir naquela música. O Pro Tools permite que você manipule aquilo e não tenha mais que fazer escolhas que sejam criativas”.

O nome do álbum gravado para este documentário é “Real to Reel”, que significa “Do Real para a Fita”, e sintetiza perfeitamente o que é o processo de gravação e o quão ele é importante para que grandes músicas sejam feitas. Todo o caminho percorrido durante a captação da realidade até a fita final fez as pessoas retratadas nesse documentário serem o que são, e sem a postura sincera e verdadeira que Sound City e seus dirigentes tiveram ao longo desses anos, nada disso haveria acontecido, e a música moderna teria um grande buraco em sua história.

Esse documentário é essencial tanto para aqueles que são apreciadores quanto os compositores de música. Ele nos alerta que, para alcançarmos grandes resultados artísticos, precisamos nos despir e tentar captar o máximo de nosso coração para dentro de nossa produção sonora.

Ele mostra que a arte é feita e consolidada por aqueles que erram, e que o erro nela é a alma de um artista impressa espontaneamente em sua obra. Ele constata que não há problema em se usar tecnologia e, o mesmo Trent Razor que a ataca, defende também, como um instrumento para expandir sua criatividade.

O problema está em nos afastarmos cada vez mais em um mundo tecnológico que supostamente deveria nos conectar, e mostra de um modo belíssimo o quanto estamos perdendo com isso.

Quem tiver interesse em dar uma conferida no filme, segue abaixo o trailer (em inglês). Se ficar interessado, procure trechos no youtube, ou em alguma plataforma, altamente recomendado!

Ficha técnica básica:

Direção: Dave Grohl.

Produzido por: Dave Grohl, James A. Rota e John Ramsay.

Escrito por: Mark Monroe.

Cinematografia: Kenny Stoff.

Editado por: Paul Crowder.

Companhia de produção: Therapy Content e Diamond Docs.

Tempo de duração: 107 minutos.

País: Estados Unidos da América.

Previous «
Next »

Deixe uma resposta

Arquivos